top of page

QUANDO NOS AFASTAMOS DE NÓS MESMAS

  • há 8 horas
  • 4 min de leitura

"Nem sempre nos perdemos. Às vezes, apenas nos afastamos de quem somos para conseguir continuar."



Há momentos em que a vida continua acontecendo, mas algo dentro de nós parece ter ficado para trás.


Seguimos acordando cedo, cumprindo compromissos, respondendo mensagens, trabalhando, cuidando da casa, da família, das responsabilidades. Fazemos o que precisa ser feito. Aos olhos de quem nos observa, tudo parece estar em ordem. E, no entanto, existe uma sensação difícil de explicar. Como se estivéssemos presentes apenas pela metade. Como se uma parte de nós acompanhasse a rotina enquanto outra permanecesse distante, silenciosa, esperando ser encontrada.


Nem sempre esse afastamento acontece de forma brusca, na maioria das vezes, ele é construído lentamente. A cada emoção que aprendemos a esconder, a cada necessidade que deixamos para depois e a cada vez que escolhemos corresponder às expectativas dos outros antes de escutar aquilo que acontecia dentro de nós. E sem perceber, vamos nos tornando especialistas em funcionar, e, aos poucos, deixamos de habitar a própria vida.


Existe uma diferença profunda entre viver e apenas funcionar.


Funcionar é continuar seguindo mesmo quando estamos cansadas. É sorrir quando já não encontramos alegria. É responder "está tudo bem" sem realmente saber como estamos. É cumprir papéis com competência enquanto, por dentro, cresce uma estranha sensação de vazio.


Esse vazio, muitas vezes, assusta. Muitas vezes tentamos preenchê-lo com mais produtividade, mais informações, mais cursos, mais metas, mais compras, mas respostas…


Vivemos em um tempo que nos ensina a buscar quase tudo do lado de fora. Vemos diariamente livros para explicar quem somos, vídeos dizendo como devemos viver, métodos para encontrar felicidade, conteúdos infinitos prometendo transformação. 


Nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento. E, paradoxalmente, talvez nunca tenha sido tão difícil escutar a própria voz. Não porque ela tenha desaparecido, mas porque há muito ruído ao redor, e, principalmente, dentro de nós.


Pouco a pouco, vamos nos acostumando a perguntar aos outros o que deveríamos sentir, o que deveríamos escolher, como deveríamos agir. Como se a sabedoria sobre nossa própria vida estivesse sempre em algum lugar fora de nós. Mas existe um conhecimento que não pode ser aprendido apenas pela mente. Ele precisa ser vivido, sentido e habitado.


Existe uma sabedoria que nasce do silêncio, da presença, da capacidade de permanecer alguns instantes consigo mesma sem precisar fugir para distrações, explicações ou respostas imediatas.


Talvez o maior afastamento que experimentamos não seja dos outros, mas de nós mesmas. E esse distanciamento não acontece porque somos fracas, mas muitas vezes, ele foi uma forma de sobrevivência. Em algum momento da história, afastar-se das próprias emoções pode ter parecido mais seguro do que senti-las, silenciar desejos pode ter sido necessário para preservar vínculos, aprender a cuidar de todos pode ter parecido mais importante do que aprender a cuidar de si e adaptar-se pode ter garantido pertencimento.


O problema é que aquilo que um dia protegeu também pode, mais tarde, impedir o encontro consigo mesma.


E então surgem algumas perguntas silenciosas:

“Quem sou eu quando deixo de cumprir todas as expectativas?”

“Quem sou eu quando ninguém espera nada de mim?”

“Quem sou eu quando o silêncio chega?”


Essas perguntas não costumam ter respostas rápidas, elas pedem presença, tempo e coragem para permanecer.


Na Psicoterapia Somática, compreendemos que voltar para si não acontece apenas através do pensamento, o corpo também participa desse reencontro, pois ele guarda memórias, e também guarda possibilidades.


Às vezes, o caminho de volta começa com alguns pequenos gestos:

  • Quando percebemos a respiração que antes passava despercebida.

  • Quando sentimos os pés tocando o chão.

  • Quando reconhecemos o próprio cansaço sem imediatamente tentar vencê-lo.

  • Quando permitimos que uma emoção exista sem precisar corrigi-la.


Esses gestos parecem pequenos, mas, muitas vezes, são o início de uma grande transformação. Porque voltar para si não significa tornar-se alguém diferente, significa deixar de viver tão distante daquilo que sempre esteve vivo dentro de nós.


Existe uma dimensão da nossa existência que permanece intacta, mesmo depois das dores, das perdas e das adaptações. Um lugar silencioso onde ainda habitam a sensibilidade, a criatividade, a capacidade de amar, de confiar e de encontrar sentido.


Alguns chamam esse lugar de essência, outros, de consciência, outras, simplesmente, de presença.


Talvez o nome não seja o mais importante, pois o mais importante é lembrar que ele continua existindo e esperando, não para que nos tornemos versões melhores de nós mesmas, mas para que possamos voltar a ser inteiras.


O autoconhecimento não é uma busca para descobrir algo novo, mas um delicado movimento de recordar quem fomos antes de aprendermos a nos afastar. Como uma experiência de reconexão profunda com aquilo que existe de mais verdadeiro em nós.


Porque, quando voltamos a habitar a própria vida, percebemos que nunca estivemos realmente perdidas, estávamos apenas longe de casa. E casa, às vezes, não é um lugar, é um espaço interior onde corpo, mente e alma voltam a caminhar na mesma direção.


Se, ao longo desta leitura, você reconheceu essa sensação de estar distante de si mesma, talvez não seja necessário encontrar todas as respostas agora. Às vezes, o primeiro passo é apenas permitir-se parar e escutar o que há muito tempo ficou em silêncio.


Há caminhos que podem ser percorridos sozinha. Outros se tornam mais possíveis quando existe um espaço seguro para ser acolhida, sem precisar corresponder a expectativas ou carregar o peso de parecer sempre forte. E a psicoterapia pode ser esse lugar. Um espaço onde não é preciso encontrar imediatamente quem você é, mas onde, aos poucos, é possível voltar a habitar a própria história, o próprio corpo e a própria vida.


Porque, no fundo, o caminho do autoconhecimento talvez nunca tenha sido uma busca para se tornar outra pessoa, mas uma delicada travessia de volta para si mesma.



Obrigada por chegar até aqui!

Se este texto encontrou um lugar dentro de você, talvez ele também possa acolher outra mulher. Compartilhe esta leitura com quem possa precisar dela e, se desejar, deixe seu comentário. Será uma alegria conhecer como essas palavras reverberaram em você.

Se você aprecia reflexões sobre corpo, mente, emoções, trauma, espiritualidade e autoconhecimento, convido você a permanecer por aqui.

Inscreva-se gratuitamente para receber cada nova publicação diretamente no seu e-mail e acompanhar os próximos textos desta jornada de cuidado e reconexão consigo mesma.


Maria Cecília Galvão Brasil 

-Psicóloga Clinica | CRP 08/37354
-Psicoterapeuta de Mulheres
-Especialista em Psicoterapia Somática e Saúde Integral
-Especialista em Trauma e Estresse Pós-traumático
-Atendimentos Online | Brasil e Exterior

Para me conhecer melhor acesse: https://www.ceciliabrasil.com/psicologademulheres


O corpo guarda memórias que só podem ser libertadas quando encontramos um

espaço de confiança e presença."

(David Boadella)




Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
ME ACOMPANHE NAS REDES

Maria Cecília Galvão Brasil

Corpo • Emoção • Presença • Alma
  • LinkedIn
  • Spotify
  • Instagram
  • Tópicos

© 2023 por Maria Cecília Fagundes Brasil. CRP 08?37354. Todos os direitos reservados. Criado orgulhosamente com Wix.com

bottom of page