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O CORPO SABE O CAMINHO DE VOLTA PARA SI

  • há 8 horas
  • 5 min de leitura

O corpo participa da nossa história e pode revelar aquilo que ainda não conseguimos colocar em palavras.



Há momentos na vida em que percebemos que estamos cansadas, mas não sabemos exatamente do quê. Seguimos fazendo o que precisa ser feito, cumprindo compromissos, cuidando de pessoas, respondendo mensagens, trabalhando, resolvendo problemas. A vida continua acontecendo e nós continuamos acompanhando seu movimento. Por fora, talvez tudo pareça estar no lugar. Mas, por dentro, alguma coisa parece ter se afastado.


Não sabemos dizer exatamente quando aconteceu. Não houve necessariamente uma ruptura, uma grande decisão ou um acontecimento que pudesse ser apontado como o início. Foi acontecendo aos poucos. Um pouco cada vez que silenciamos o que sentíamos para não desagradar. Um pouco cada vez que dissemos sim quando queríamos dizer não. Um pouco cada vez que deixamos nossas necessidades para depois porque havia alguém precisando mais de nós. Um pouco cada vez que aprendemos a ser fortes quando, na verdade, precisávamos apenas de acolhimento.


A gente não se perde de si de uma vez. Vai se afastando aos poucos.


Talvez seja assim que muitas mulheres se distanciam de quem são. Não porque deixaram de existir, mas porque aprenderam, ao longo da vida, a se adaptar. A menina que percebe que é melhor não dar trabalho. A adolescente que começa a observar o que precisa fazer para pertencer. A mulher que aprende a sustentar relações, responsabilidades e expectativas, muitas vezes colocando a própria voz em segundo plano. São adaptações que, em determinados momentos, podem ter sido necessárias. Formas de encontrar amor, segurança, pertencimento ou proteção. O problema é quando aquilo que um dia nos ajudou a sobreviver passa a nos impedir de viver com inteireza.


E, então, vamos nos acostumando a perguntar o que os outros precisam antes de perguntar o que nós precisamos. O que esperam de mim? O que devo fazer? Como devo me comportar? O que é melhor para todos? E, sem perceber, uma pergunta essencial vai ficando cada vez mais distante: o que eu sinto?


Não é raro encontrar mulheres que sabem cuidar de todo mundo, mas têm dificuldade de reconhecer o próprio cansaço. Que percebem rapidamente quando alguém está triste, irritado ou precisando de ajuda, mas demoram a perceber quando algo dentro delas está pedindo atenção. Mulheres que conseguem organizar a vida de muitas pessoas, mas não conseguem responder com clareza quando perguntamos o que desejam para si.


Não porque não tenham desejos. Talvez porque tenham passado tempo demais aprendendo a escutar tudo, menos a própria voz.


E é justamente aí que o corpo pode começar a aparecer como um lugar de encontro.


Antes mesmo de conseguirmos colocar algumas experiências em palavras, o corpo já participa delas. Ele sente o aperto, a aceleração, a contração, o cansaço, a inquietação. Pode permanecer em alerta diante de situações que a nossa consciência considera pequenas. Pode carregar tensões que se repetem. Pode sinalizar que estamos ultrapassando limites que há muito tempo deixamos de perceber.


O corpo é complexo, e seus sinais precisam ser cuidados com responsabilidade. Mas não precisamos tratar o corpo como algo separado da nossa história, como se aquilo que vivemos não deixasse nenhuma marca em nossa maneira de respirar, descansar, sentir e estar no mundo.


O corpo participa da nossa história.


Por isso, precisamos escutá-lo, não apenas quando ele dói, mas também quando ele muda de ritmo. Quando pede descanso. Quando se contrai diante de uma situação. Quando relaxa na presença de alguém. Quando sente alívio depois de um limite finalmente colocado. Quando uma determinada escolha produz expansão e outra provoca um aperto difícil de explicar.


Há uma sabedoria silenciosa nessas percepções.


Uma sabedoria que transforma todo sintoma em mensagem e que nos mostra uma possibilidade de escuta. O corpo pode nos ajudar a perceber aquilo que a mente, muitas vezes ocupada demais em justificar, racionalizar e seguir adiante, ainda não conseguiu reconhecer.


Talvez por isso voltar para si não seja simplesmente pensar mais sobre si mesma. É preciso também voltar a sentir.


Sentir o próprio corpo sentado na cadeira. Perceber a respiração. Notar onde existe tensão. Reconhecer o cansaço antes que ele se transforme em exaustão. Perceber a tristeza antes de precisar escondê-la. Dar espaço à raiva sem precisar transformá-la imediatamente em culpa. Reconhecer um desejo sem julgá-lo. Perceber um limite antes de ultrapassá-lo tantas vezes que o corpo precise gritar.


Voltar para si pode ser um movimento muito pequeno.


Às vezes, começa quando uma mulher percebe que não quer mais responder imediatamente. Quando decide descansar sem justificar. Quando reconhece que determinada relação a faz mal. Quando deixa de sorrir para esconder o desconforto. Quando finalmente consegue dizer: “isso não está bom para mim”.


São pequenos movimentos de retorno.


Porque talvez voltar para si não seja encontrar uma versão perdida de quem fomos. Nós mudamos. A vida nos atravessou. Algumas coisas precisaram morrer para que outras pudessem nascer. Há experiências que nos transformaram para sempre.


Voltar para si é, talvez, aprender a estar novamente em companhia de quem nos tornamos.


E isso exige presença.


Exige reconhecer que não precisamos estar bem o tempo inteiro. Que podemos não saber. Que podemos mudar de ideia. Que podemos desejar coisas diferentes das que desejávamos antes. Que amadurecer não significa abandonar aquilo que sentimos, mas desenvolver a capacidade de permanecer conosco enquanto sentimos.


Talvez seja essa uma das formas mais profundas de cuidado: não fugir de nós mesmas quando aquilo que encontramos não é bonito, organizado ou fácil.


Porque existe uma parte de nós que só pode ser conhecida quando paramos de tentar parecer bem e começamos a nos escutar de verdade.


E talvez muitas mulheres estejam cansadas justamente de viver longe de si.


Cansadas de desempenhar papéis. De corresponder. De sustentar. De controlar. De antecipar as necessidades dos outros. De parecer fortes. De continuar quando o corpo pede pausa.


Não necessariamente querem abandonar tudo. Muitas vezes, querem apenas voltar a sentir que estão dentro da própria vida.


É diferente.


Não se trata de desistir das responsabilidades, das relações ou dos sonhos. Trata-se de não precisar desaparecer dentro deles.


Cuidar de si não é afastar-se da vida. É voltar a habitá-la.


E talvez o caminho de volta não seja uma grande transformação. Talvez seja feito de pequenas escolhas cotidianas: uma pausa antes de responder, um limite colocado com respeito, uma noite em que se escolhe descansar, uma emoção que finalmente encontra espaço, uma respiração percebida conscientemente, um desejo que deixa de ser adiado. Pouco a pouco, começamos a nos reconhecer novamente.


Não porque finalmente encontramos todas as respostas, mas porque deixamos de ignorar as perguntas:

O que eu sinto?

O que eu preciso?

O que me faz bem?

O que já não cabe em mim?

Onde tenho me abandonado para continuar pertencendo?


Talvez essas perguntas não tenham respostas imediatas. E tudo bem. Há caminhos que não precisam ser percorridos com pressa. O importante é começar a voltar.


Voltar para o corpo; para a presença; para aquilo que sentimos; para os nossos limites; para os nossos desejos; para a nossa própria companhia.

Porque, no fundo, talvez nunca tenhamos perdido completamente o caminho.


Talvez o corpo tenha continuado ali, silenciosamente, esperando que voltássemos a escutá-lo.


E quando finalmente paramos, respiramos e prestamos atenção, podemos perceber que o caminho de volta para nós mesmas não estava tão distante assim.

Ele sempre esteve aqui.

Dentro.



Obrigada por chegar até aqui!

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Maria Cecília Galvão Brasil 

-Psicóloga Clinica | CRP 08/37354
-Psicoterapeuta de Mulheres
-Especialista em Psicoterapia Somática e Saúde Integral
-Especialista em Trauma e Estresse Pós-traumático
-Atendimentos Online | Brasil e Exterior

Para me conhecer melhor acesse: https://www.ceciliabrasil.com/psicologademulheres


O corpo guarda memórias que só podem ser libertadas quando encontramos um

espaço de confiança e presença."

(David Boadella)


1 comentário

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Nathaly
há 7 horas
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Que texto execelente

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Maria Cecília Galvão Brasil

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