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COMO NÃO SE PERDER DE SI MESMA EM UM RELACIONAMENTO

há 11 minutos
7 min de leitura

“Talvez o amor mais consciente seja aquele em que duas pessoas conseguem construir um ‘nós’ sem destruir o ‘eu’.”



No início de um relacionamento, é natural que duas pessoas queiram estar próximas. Existe o desejo de compartilhar experiências, descobrir o outro, adaptar rotinas, fazer planos e construir uma vida em comum. Aos poucos, aquilo que antes pertencia a dois mundos diferentes começa a encontrar pontos de encontro, e essa aproximação pode ser uma das experiências mais bonitas de um vínculo afetivo.

Mas, em algum momento, essa aproximação pode ultrapassar um limite sutil. Sem perceber, podemos começar a abrir mão de pequenos espaços, desejos e escolhas que antes faziam parte de quem somos. Primeiro deixamos de fazer alguma coisa porque o outro não gosta. Depois passamos a evitar determinados assuntos para não provocar conflitos. Mudamos nossa maneira de agir, de vestir, de falar, de ocupar nosso tempo. Começamos a consultar o outro para quase tudo e, pouco a pouco, podemos deixar de perguntar a nós mesmas o que queremos.

E talvez a pergunta mais importante seja justamente esta: em nome de manter uma relação, o que você tem deixado de manter em você?


Toda relação envolve negociação. Conviver é aprender a considerar o outro, rever algumas posições, fazer concessões e encontrar maneiras de construir algo que não exista apenas a partir das necessidades individuais.

O problema não está em ceder algumas vezes. O problema começa quando ceder se transforma em uma forma permanente de existir dentro da relação.

Há mulheres que foram aprendendo, ao longo da vida, que ser amada significa ser compreensiva, disponível, agradável e capaz de evitar conflitos. Talvez tenham aprendido muito cedo a perceber o humor das pessoas, antecipar necessidades e adaptar seu comportamento para preservar os vínculos. Quando esse padrão chega à vida amorosa, pode ser difícil perceber onde termina o cuidado com o outro e começa o abandono de si.

Então, aquilo que inicialmente parece apenas uma tentativa de manter a harmonia pode se transformar em silêncio sobre aquilo que incomoda, dificuldade de dizer não, medo de decepcionar e necessidade constante de aprovação.

Quando você precisa diminuir partes de si para que a relação funcione, talvez o problema não esteja na sua necessidade de amar, mas na maneira como você aprendeu que precisa ser amada.


Intimidade não é deixar de existir como indivíduo.

Existe uma diferença importante entre intimidade e fusão.

Na intimidade, duas pessoas se aproximam e compartilham partes importantes de suas vidas, mas continuam sendo duas pessoas. Existem desejos individuais, amizades, interesses, histórias, espaços, opiniões e necessidades que podem coexistir dentro do vínculo.

Na fusão, essa diferenciação vai ficando cada vez mais difícil. O bem-estar de um passa a depender excessivamente do outro, as escolhas individuais parecem ameaçar a relação e qualquer distância pode ser interpretada como rejeição ou falta de amor.

É possível amar profundamente alguém e ainda precisar de momentos sozinha. É possível construir projetos em comum e continuar tendo sonhos próprios. É possível considerar a opinião do parceiro (a) sem abandonar a própria percepção. É possível mudar por amor sem precisar se transformar em alguém que você não reconhece.

Uma relação saudável não precisa apagar as diferenças para produzir pertencimento. Pelo contrário: talvez uma das formas mais maduras de amar seja poder estar perto sem precisar desaparecer.


Você ainda sabe o que gosta?

Às vezes, a perda de si mesma não acontece através de grandes decisões. Ela acontece nas pequenas coisas.

Você ainda sabe quais lugares gosta de frequentar? Quais músicas quer ouvir? O que gostaria de fazer em um domingo? Quais são seus projetos pessoais? Que tipo de conversa desperta seu interesse? O que faz você se sentir viva? Quais são os seus limites?

São perguntas simples, mas podem revelar muito.

Quando passamos muito tempo orientando nossa vida pelo desejo do outro, podemos perder contato com nossas próprias preferências. E não porque alguém necessariamente tenha nos proibido de alguma coisa. Às vezes, fomos nós mesmas que começamos a nos afastar daquilo que desejávamos para evitar conflitos, preservar o vínculo ou simplesmente porque fomos nos acostumando a colocar o outro em primeiro lugar.

Por isso, recuperar a própria identidade dentro de uma relação nem sempre significa fazer uma grande mudança. Às vezes, começa com uma pergunta silenciosa:

“O que eu quero?”

E talvez essa pergunta tenha ficado tempo demais sem ser feita.


O medo de perder o outro pode fazer você perder a si mesma.

Existe uma contradição dolorosa em alguns relacionamentos: quanto maior o medo de perder o outro, maior pode se tornar a necessidade de se adaptar a ele.

Quando existe medo de abandono, rejeição ou rompimento, pequenas diferenças podem parecer ameaças enormes. Uma discordância pode ser interpretada como sinal de que algo está errado. Dizer não pode despertar culpa. Expressar uma necessidade pode parecer egoísmo. Pedir espaço pode provocar medo de afastamento.

E então surge uma tentativa constante de preservar a relação.

Mas uma relação sustentada pela necessidade de evitar qualquer possibilidade de desagrado pode se tornar um lugar onde uma das pessoas precisa estar permanentemente em vigilância sobre si mesma.

Não é possível construir intimidade verdadeira quando precisamos esconder continuamente aquilo que somos para preservar o vínculo.

Isso não significa que toda relação deva ser fácil ou que toda necessidade precise ser atendida imediatamente. Relações reais envolvem diferenças, frustrações, conflitos e negociação. A questão é se existe espaço para que ambos possam existir dentro delas.


O corpo percebe quando estamos nos afastando de nós mesmas.

Muitas vezes, o corpo começa a revelar aquilo que ainda não conseguimos formular em palavras.

Uma tensão que aparece antes de determinadas conversas, um aperto no peito quando precisamos dizer o que pensamos, uma sensação de alívio quando estamos sozinhas, uma irritação que se repete, um cansaço que parece não ter explicação ou uma dificuldade constante de relaxar podem nos convidar a olhar para a maneira como estamos vivendo nossos vínculos.

Isso não significa que toda manifestação corporal tenha origem em um relacionamento. O corpo é complexo e não deve ser interpretado de maneira simplista. Mas ele pode nos oferecer informações importantes sobre a nossa experiência.

Escutar o corpo pode ser uma forma de voltar a escutar a si mesma.

Talvez aquela tensão esteja dizendo que existe algo que você gostaria de expressar. Talvez o cansaço revele o esforço de sustentar uma dinâmica que já não combina com aquilo que você precisa. Talvez o desconforto apareça justamente onde você aprendeu a ultrapassar seus próprios limites.

Não se trata de obedecer automaticamente a cada sensação, mas de desenvolver curiosidade diante dela.

O que acontece comigo quando digo sim querendo dizer não? Como meu corpo reage quando sinto que preciso agradar? O que sinto quando tenho liberdade para ser espontânea? O que muda em mim quando posso expressar uma necessidade sem medo?

São perguntas que podem abrir caminhos importantes de autoconhecimento.


Continuar sendo você também é uma forma de amar.

Talvez exista uma ideia equivocada de que preservar a individualidade dentro de um relacionamento significa manter distância emocional, evitar dependência ou não precisar de ninguém.

Não é isso.

Precisamos uns dos outros. O vínculo, a intimidade e a capacidade de receber cuidado também fazem parte de uma vida emocional saudável. A questão não é aprender a viver sem o outro, mas aprender a estar com o outro sem abandonar a própria existência.

Você pode amar e continuar tendo seus próprios espaços. Pode cuidar e também precisar de cuidado. Pode fazer planos em conjunto e preservar sonhos pessoais. Pode mudar algumas coisas e manter outras. Pode pertencer a alguém sem deixar de pertencer a si mesma.

Talvez o amor mais consciente não seja aquele em que duas pessoas deixam de ser duas para se tornarem uma. Talvez seja aquele em que duas pessoas conseguem construir um “nós” sem destruir o “eu”.


E se você já tiver se perdido um pouco de si?

Talvez essa pergunta tenha chegado tarde. Talvez você perceba que já abriu mão de muitas coisas, que deixou amizades de lado, abandonou interesses, silenciou opiniões ou passou tanto tempo tentando preservar uma relação que já não sabe exatamente onde terminou o desejo do outro e começou o seu.

Ainda assim, é possível começar a se reencontrar.

Não é necessário romper tudo, mudar tudo ou tomar decisões impulsivas. Às vezes, o primeiro movimento é simplesmente voltar a prestar atenção em si.

Retomar uma atividade que fazia sentido. Reencontrar uma amiga. Fazer algo sozinha. Perceber o que você sente. Reconhecer um limite. Dizer uma opinião que antes seria silenciada. Voltar a perguntar o que deseja.

Reencontrar-se não significa afastar-se necessariamente de quem você ama. Significa aproximar-se novamente de quem você é.

E talvez esse seja um dos movimentos mais importantes dentro de qualquer relação: continuar crescendo sem precisar desaparecer.

Porque amar alguém não deveria significar deixar de existir.

O vínculo pode ser um lugar de encontro, mas não precisa ser o lugar onde você deposita toda a sua identidade. Você pode construir uma vida compartilhada e, ao mesmo tempo, continuar cultivando aquilo que é somente seu.

No fim, talvez a pergunta não seja apenas “eu amo essa pessoa?”.

Talvez seja também: “Eu ainda consigo ser eu mesma ao lado dela?”

E essa pergunta, quando respondida com honestidade e cuidado, pode revelar muito sobre a relação que estamos construindo e, principalmente, sobre a relação que estamos construindo conosco.

Porque uma relação pode ser casa sem deixar de existir uma porta para o mundo. E amar alguém não precisa significar deixar de voltar para si.



Obrigada por chegar até aqui!

♡

Se este texto encontrou um lugar dentro de você, talvez ele também possa acolher outra mulher. Compartilhe esta leitura com quem possa precisar dela e, se desejar, deixe seu comentário. Será uma alegria conhecer como essas palavras reverberaram em você.

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Maria Cecília Galvão Brasil 

-Psicóloga Clinica | CRP 08/37354
-Psicoterapeuta de Mulheres
-Especialista em Psicoterapia Somática e Saúde Integral
-Especialista em Trauma e Estresse Pós-traumático
-Atendimentos Online | Brasil e Exterior

Para me conhecer melhor acesse: https://www.ceciliabrasil.com/psicologademulheres


“O corpo guarda memórias que só podem ser libertadas quando encontramos um

espaço de confiança e presença."

(David Boadella)


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