A MENINA QUE VOCÊ FOI AINDA VIVE EM VOCÊ?

"Reconhecer a menina que fomos é também aprender a acolher a mulher que nos tornamos."
Talvez você já tenha percebido que algumas situações da vida adulta despertam em você reações que parecem maiores do que aquilo que está acontecendo naquele momento.
Uma crítica e você sente uma necessidade enorme de se justificar. Alguém se distancia e surge um medo intenso de ser abandonada. Você precisa dizer não, mas sente uma culpa difícil de explicar. Comete um erro e imediatamente começa a pensar que não é boa o suficiente. Alguém desaprova uma escolha sua e, de repente, você se sente pequena.
Talvez, racionalmente, você saiba que não deveria se sentir assim. Mas, o corpo reage antes que você consiga compreender.
O coração acelera.
O peito aperta.
A garganta fecha.
Surge vontade de chorar. Você fica em silêncio, tenta agradar, se explica demais ou simplesmente deseja desaparecer daquela situação.
E talvez exista uma pergunta importante por trás dessas reações:
Será que essa emoção pertence apenas à mulher que você é hoje?
A criança que fomos não desaparece simplesmente.
Quando falamos em “criança interior”, não estamos falando literalmente de uma criança vivendo dentro da mulher adulta. Estamos falando de uma maneira simbólica de olhar para as experiências, necessidades, emoções, crenças e formas de proteção que foram construídas ao longo da infância e que podem continuar influenciando nossa vida.
A infância é um período em que estamos aprendendo quem somos.
Aprendemos, através das relações, o que significa ser amada, pertencer, receber cuidado, expressar necessidades, cometer erros, estabelecer limites e ocupar espaço.
Também aprendemos, muitas vezes sem perceber, o que parece ser necessário fazer para manter uma relação segura.
Algumas crianças aprendem:
“Preciso ser boazinha para ser amada.”
“Não posso dar trabalho.”
“É melhor não contrariar.”
“Preciso cuidar dos outros.”
“Não posso demonstrar fraqueza.”
“Tenho que ser perfeita.”
“Preciso me virar sozinha.”
Essas aprendizagens podem ter sido formas de adaptação ao ambiente em que aquela criança estava inserida.
E algumas delas podem continuar presentes muitos anos depois.
Quando a mulher adulta reage com uma dor antiga?
Nem toda reação emocional intensa tem origem na infância. Mas, algumas situações atuais podem despertar sentimentos, medos ou estratégias de proteção que foram construídos muito antes.
É como se uma experiência do presente tocasse em algo que já estava guardado no organismo.
Uma crítica atual pode despertar a antiga sensação de nunca ser boa o suficiente. Uma rejeição pode tocar no medo de não ser escolhida. Um conflito pode despertar a necessidade de apaziguar tudo rapidamente. Uma pessoa que se distancia pode ativar uma sensação profunda de abandono.
E, nesses momentos, talvez você perceba uma coisa curiosa:
uma parte de você sabe que está no presente, mas o corpo reage como se precisasse se proteger de algo muito antigo.
É por isso que compreender racionalmente uma situação nem sempre é suficiente para mudar a maneira como reagimos a ela, pois o corpo também tem sua própria memória de experiências.
O corpo pode contar histórias que a mente já esqueceu!
Nem sempre conseguimos lembrar de todos os acontecimentos que contribuíram para a maneira como aprendemos a nos relacionar. E não precisamos necessariamente encontrar uma lembrança específica para validar aquilo que sentimos. Às vezes, o que aparece é uma reação corporal.
Uma contração.
Um congelamento.
Uma vontade de fugir.
Uma necessidade de agradar.
Uma sensação de estar pequena diante de alguém.
Uma dificuldade de sustentar o olhar.
Um impulso de pedir desculpas mesmo quando não fizemos nada de errado.
O corpo pode revelar que alguma situação foi percebida como ameaçadora, mesmo quando a nossa mente adulta sabe que estamos diante de uma situação diferente.
Por isso, olhar para a história pessoal também pode significar aprender a escutar o corpo com mais delicadeza.
Não para encontrar uma explicação para tudo, mas para compreender melhor os próprios padrões.
Que menina você precisou ser?
Essa pode ser uma pergunta muito poderosa.
Que menina você precisou ser para se sentir amada, aceita ou segura?
Talvez tenha sido a menina boazinha, a responsável, a estudiosa, a independente, a que não incomodava, a que cuidava dos irmãos, a que percebia o humor dos adultos antes mesmo que eles falassem, a que escondia o choro, a que tentava fazer tudo certo ou a que aprendeu cedo demais a não precisar de ninguém.
Essas características podem ter sido recursos importantes em determinados momentos da vida. O problema não está necessariamente no que aquela menina fez, o problema pode surgir quando uma estratégia que foi necessária no passado continua comandando a vida adulta, mesmo quando o contexto mudou.
A menina que aprendeu a agradar para manter vínculos pode se tornar uma mulher que não consegue dizer não.
A menina que precisou ser forte pode se tornar uma mulher que não consegue pedir ajuda.
A menina que aprendeu a cuidar de todos pode se tornar uma mulher que desconhece as próprias necessidades.
A menina que precisou ser perfeita pode se tornar uma mulher que nunca sente que fez o suficiente.
Nem tudo precisa continuar sendo carregado.
À medida que crescemos, podemos começar a perceber que algumas estratégias que um dia nos protegeram já não são necessárias da mesma maneira.
Hoje você pode ser adulta, pode escolher, pode colocar limites, pode sair de determinadas relações, pode pedir ajuda, pode dizer que não sabe, pode mudar de ideia, pode decepcionar alguém, pode não agradar, pode descansar, pode ocupar espaço, pode cuidar de si.
Mas, para algumas mulheres, essas possibilidades ainda despertam medo, e isso não significa fraqueza, significa que determinadas formas de proteção podem estar profundamente aprendidas.
Por isso, transformar padrões não acontece simplesmente porque decidimos “agir diferente, é preciso, muitas vezes, criar novas experiências internas.
Experimentar dizer não e perceber que o mundo não desmorona.
Expressar uma necessidade e descobrir que ela pode ser acolhida.
Errar e perceber que um erro não define nosso valor.
Receber uma crítica sem concluir que somos inadequadas.
Descansar sem precisar justificar o próprio cansaço.
Escolher a nós mesmas sem interpretar isso como egoísmo.
É assim que novas experiências podem, pouco a pouco, ensinar algo diferente ao corpo.
Cuidar da criança interior não é voltar ao passado.
Cuidar da criança que fomos não significa permanecer presa à infância. Também não significa transformar todo sofrimento atual em consequência de alguma experiência passada, significa olhar para a própria história com mais compreensão. Reconhecer que aquela criança fez o que conseguiu com os recursos que tinha. Que algumas respostas foram tentativas de adaptação. Que algumas necessidades talvez não tenham sido reconhecidas. E que hoje existe uma mulher adulta capaz de construir novas escolhas.
Talvez essa seja uma das partes mais bonitas do processo de amadurecimento: poder oferecer a si mesma, hoje, aquilo que talvez tenha faltado em algum momento da sua história.
Segurança. Limites. Proteção. Acolhimento. Escuta. Permissão para sentir. Permissão para ser.
A mulher que você é hoje pode cuidar da menina que você foi.
Talvez você não consiga mudar aquilo que aconteceu.
Não podemos voltar no tempo para proteger aquela menina de todas as dores, frustrações ou ausências. Mas, podemos mudar a maneira como nos relacionamos com essa história.
Podemos parar de culpá-la por ter desenvolvido determinadas formas de proteção; reconhecer sua força; compreender seus medos. E podemos permitir que a mulher que somos hoje assuma o lugar de cuidado que antes talvez estivesse tão distante.
Isso pode significar aprender a dizer:
“Você não precisa mais fazer tudo sozinha.”
“Você pode dizer não.”
“Você não precisa ser perfeita para ser amada.”
“Você pode sentir.”
“Você pode descansar.”
“Você pode ocupar o seu espaço.”
E talvez, pouco a pouco, aquilo que antes precisava ser feito para sobreviver emocionalmente possa deixar de ser necessário para viver.
Amadurecer é também voltar para si
Existe uma ideia de que crescer significa deixar a infância para trás. Mas, amadurecer é olhar para aquela menina com os olhos da mulher que você se tornou. Não para permanecer nela, nem viver no passado, mas para integrá-la à sua história.
Porque você não precisa rejeitar quem foi para se tornar quem é.
Pode reconhecer a menina sensível. A menina assustada. A menina alegre. A menina que sonhou. A menina que precisou ser forte. Todas elas fazem parte da sua história.
E hoje existe algo que antes não existia:
você adulta.
Com mais consciência, mais possibilidades, mais escolhas, mais recursos e mais capacidade de proteger a si mesma.
Talvez a cura não esteja em apagar aquilo que fomos, nem deixar de abandonar essa parte da nossa história, mas permitir que ela encontre um lugar diferente dentro de nós.
A infância não pode ser reescrita, mas a relação que construímos hoje com a nossa própria história pode se transformar.
Então, amadurecer é não abandonar a menina que fomos, mas permitir que ela finalmente possa descansar dentro da mulher que nos tornamos.
Que tal olhar para a sua história com mais carinho e descobrir o que ela ainda tem a lhe revelar?
Obrigada por chegar até aqui!
♡
Se este texto encontrou um lugar dentro de você, talvez ele também possa acolher outra mulher. Compartilhe esta leitura com quem possa precisar dela e, se desejar, deixe seu comentário. Será uma alegria conhecer como essas palavras reverberaram em você.
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Maria Cecília Galvão Brasil
-Psicóloga Clinica | CRP 08/37354
-Psicoterapeuta de Mulheres
-Especialista em Psicoterapia Somática e Saúde Integral
-Especialista em Trauma e Estresse Pós-traumático
-Atendimentos Online | Brasil e Exterior
Para me conhecer melhor acesse: https://www.ceciliabrasil.com/psicologademulheres
“O corpo guarda memórias que só podem ser libertadas quando encontramos um
espaço de confiança e presença."
(David Boadella)




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