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QUANDO A INDEPENDÊNCIA FEMININA ESCONDE UMA FERIDA

  • 10 de jul.
  • 4 min de leitura

Nem toda mulher que aprendeu a dar conta de tudo escolheu ser assim. Algumas apenas nunca conheceram a segurança de poder depender de alguém.


Há mulheres que parecem carregar o mundo com uma serenidade admirável.

São aquelas que resolvem, organizam, antecipam, sustentam. Mulheres que dificilmente pedem ajuda, que encontram soluções para quase tudo, que seguem mesmo quando estão cansadas. Costumam ser vistas como fortes, independentes, capazes. E, muitas vezes, também se enxergam dessa forma.

Mas existe uma pergunta que raramente fazemos.

O que aconteceu para que essa mulher aprendesse que precisava dar conta de tudo sozinha?


Vivemos em uma cultura que celebra a independência como sinônimo de força. Desde cedo aprendemos que ser autônoma é uma conquista, um sinal de maturidade, de competência, de liberdade. E, de fato, há uma independência que nasce desse lugar saudável: a capacidade de caminhar com os próprios pés sem deixar de construir vínculos, de escolher sem medo, de confiar em si mesma sem precisar se fechar para o outro.

Mas existe uma outra forma de independência, que é mais silenciosa, mais rígida, mais solitária. E ela não nasce da liberdade, nasce da necessidade.


Em algum momento da vida, depender de alguém deixou de parecer seguro, por alguma razão:

  • Talvez porque não houvesse quem acolhesse. 

  • Talvez porque pedir ajuda significasse ouvir um "não", sentir-se um peso ou perceber que as próprias necessidades não encontravam espaço. 

  • Ou talvez porque fosse preciso crescer cedo demais.

E assim, o corpo registra essas experiências muito antes de conseguirmos compreendê-las. E aquilo que um dia foi uma adaptação necessária transforma-se, aos poucos, em uma forma de existir. E sem perceber, essa mulher aprende:

  • Que é mais seguro não precisar de ninguém.

  • A resolver antes de pedir. 

  • A suportar antes de compartilhar.

  • A cuidar antes de ser cuidada.

  • A oferecer antes de receber.


O curioso é que, com o passar dos anos, esse funcionamento costuma ser confundido com personalidade, então escuto muitas mulheres no consultório dizerem: 

"Eu sempre fui assim."

"Não gosto de depender de ninguém."

"Prefiro fazer sozinha."

Mas nem sempre isso revela quem ela é. Às vezes, revela apenas aquilo que precisou construir para sobreviver.


A Psicoterapia Somática nos lembra que as experiências da infância não permanecem apenas na memória. Elas também moldam a forma como respiramos, como ocupamos espaço, como sentimos segurança, como nos aproximamos das pessoas.

Um sistema nervoso que aprendeu cedo a viver sem sustentação dificilmente relaxa na presença do outro. Mesmo quando encontra pessoas confiáveis, e mesmo quando já não existe o perigo de antes. O corpo continua preparado para não depender.


Por isso, algumas mulheres sentem desconforto quando recebem cuidado, sentem culpa quando alguém faz algo por elas, têm dificuldade em pedir ajuda, mesmo estando sobrecarregadas, e aceitam carregar mais peso do que conseguem suportar.

E, quando finalmente o corpo pede descanso, elas não sabem exatamente como parar, porque parar significa entregar. E entregar ainda parece arriscado.


Por trás da mulher que nunca incomoda, muitas vezes existe uma criança que aprendeu que suas necessidades não encontravam resposta.

Por trás da mulher que diz "eu consigo", pode existir alguém que nunca experimentou a tranquilidade de ouvir: "deixe que eu cuido de você agora".

Essa é uma das feridas mais discretas do desenvolvimento. Porque a mulher com essas características costuma receber elogios, as pessoas admiram sua força, sua competência, sua capacidade de resolver. E poucos percebem o quanto dessa força foi construída sobre a ausência de sustentação.


E há uma diferença profunda entre ser forte e precisar ser forte o tempo todo.


A verdadeira autonomia não nos afasta dos vínculos, ela nos permite escolhê-los. Não nos impede de pedir ajuda. Não transforma o cuidado em ameaça. Não faz do descanso um motivo de culpa.

Talvez o caminho de volta não seja abandonar a independência, ela continuará sendo uma qualidade importante. Mas permitir que ela deixe de nascer do medo e passe a nascer da liberdade.


Porque existe uma enorme diferença entre não precisar de ninguém e saber que podemos contar com alguém quando a vida pesa. Esse é um aprendizado que não acontece apenas pela razão. Ele acontece quando o corpo começa, pouco a pouco, a experimentar novas vivências de segurança. Quando o sistema nervoso descobre que confiar também pode ser uma experiência possível.

E isso não acontece de um dia para o outro. É um caminho. Um reaprendizado. Uma reconstrução silenciosa.


Se, ao longo desta leitura, você reconheceu algo de si, talvez não seja porque lhe falta força. Talvez seja justamente porque você precisou ser forte por tempo demais. E ninguém deveria passar a vida inteira acreditando que só estará segura quando carregar tudo sozinha.


Há feridas que não se revelam pela dor evidente, mas pelo excesso de força que fomos obrigadas a desenvolver. E, quando essa força deixa de ser uma obrigação, algo dentro de nós começa, finalmente, a respirar.


Nem sempre é simples percorrer esse caminho sozinha. Algumas formas de existir foram construídas ao longo de muitos anos e envolvem experiências que o corpo ainda guarda como memórias de proteção. Por isso, mais do que compreender racionalmente a própria história, pode ser necessário vivenciar, em um espaço seguro, uma nova experiência de vínculo. E a psicoterapia pode oferecer esse lugar. Um espaço onde você não precise provar que dá conta de tudo, nem sustentar o peso de ser sempre a forte. Um espaço em que, aos poucos, seja possível descobrir que receber cuidado também é uma forma de fortalecimento.


Porque a verdadeira independência não é nunca precisar de ninguém, é a liberdade de escolher, sem medo, quando caminhar sozinha e quando permitir que alguém caminhe ao seu lado.



Obrigada por chegar até aqui!

Se este texto encontrou um lugar dentro de você, talvez ele também possa acolher outra mulher. Compartilhe esta leitura com quem possa precisar dela e, se desejar, deixe seu comentário. Será uma alegria conhecer como essas palavras reverberaram em você.

Se você aprecia reflexões sobre corpo, mente, emoções, trauma, espiritualidade e autoconhecimento, convido você a permanecer por aqui.

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Maria Cecília Galvão Brasil 

-Psicóloga Clinica | CRP 08/37354
-Psicoterapeuta de Mulheres
-Especialista em Psicoterapia Somática e Saúde Integral
-Especialista em Trauma e Estresse Pós-traumático
-Atendimentos Online | Brasil e Exterior

Para me conhecer melhor acesse: https://www.ceciliabrasil.com/psicologademulheres


O corpo guarda memórias que só podem ser libertadas quando encontramos um

espaço de confiança e presença."

(David Boadella)


4 comentários

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Suely Matta
14 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Li atentamente o seu texto.


Gosto da explicação que distingue a independência saudável daquela que surge da ferida. É importante existir o entendimento de onde vem a independência e quando ela é, de facto, um sintoma.


Acredito que ela pode ser uma característica inata, fortalecida por situações da vida desde cedo. Notei em mim a necessidade de aumentar essa independência para atravessar um momento de quebra de padrões que nos colocam em emaranhamentos. Por vezes, ela é a ponte necessária. Percebi que me quiseram explicar de várias formas, mas fui verificar dentro de mim e não me reconheci nessas narrativas.


No entanto, existe algo de que não se fala tanto: quando as ajudas surgem mas trazem um preço. O comum…

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Convidado:
24 de jul.
Respondendo a

Que reflexão bonita e profunda.

Concordo com você: nem toda independência nasce de uma ferida, assim como nem toda recusa de ajuda é orgulho ou dificuldade de se deixar cuidar. Às vezes, existe justamente um discernimento muito consciente sobre aquilo que uma ajuda carrega consigo, e sobre o preço emocional que pode vir junto.

Penso que a questão não está apenas em aceitar ou recusar ajuda, mas em perceber: essa ajuda me sustenta ou me aprisiona? Me permite ser quem sou ou me coloca em dívida? Respeita minha autonomia ou exige algo em troca?

E talvez seja esse o ponto em que a independência se torna uma ponte, como você tão bem colocou: um recurso interno necessário para atravessar determinados…

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Leandra Soares
14 de jul.
Avaliado com 5 de 5 estrelas.

Texto incrível, me encaixei em muitas falas, parabéns por estar auxiliando tantas mulheres❤️

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Maria Cecília Galvão Brasil
24 de jul.
Respondendo a

Que alegria receber sua mensagem! ❤️ Fico muito feliz em saber que o texto encontrou um lugar de reconhecimento em você. Às vezes, quando nos vemos refletidas em determinadas palavras, percebemos que não estamos sozinhas em nossas experiências e que aquilo que sentimos também pode ser compreendido e acolhido. 🌷

Obrigada pelo carinho e por estar aqui. Que possamos seguir juntas, ampliando consciência, acolhimento e caminhos possíveis para tantas mulheres.

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