NEM TODA DOR CONSEGUE PEDIR AJUDA
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“Há dores que não conseguem dizer ‘me ajude’, apenas encontram, no corpo e no silêncio, uma maneira de continuar existindo.”
Há dores que não fazem barulho. Continuam trabalhando. Cuidando dos filhos. Respondendo mensagens. Indo às consultas. Cumprindo compromissos. Sorrindo para as pessoas. Dizendo “está tudo bem” porque, de alguma maneira, aprenderam que é mais fácil dizer isso do que tentar explicar aquilo que acontece por dentro.
Há pessoas que sofrem em silêncio não porque não queiram ser ajudadas, mas porque nem sempre conseguem encontrar palavras para aquilo que estão vivendo.
Às vezes, a dor chega acompanhada de vergonha. Outras vezes, de medo de incomodar, de ser julgada ou de parecer fraca. Há quem tenha aprendido desde cedo a esconder o que sente. Há quem tenha passado tanto tempo sendo forte que já não saiba como dizer: “eu não estou conseguindo”.
E há também quem nem consiga compreender a própria dor, apenas sente que alguma coisa mudou.
Muitas vezes, perde a vontade de fazer aquilo que antes fazia sentido. Afasta-se das pessoas. Fica cansada de tudo. Dorme demais ou não consegue dormir. Sente um vazio que não sabe explicar. Irrita-se com facilidade. Chora escondido. Perde a esperança de que as coisas possam melhorar.
Por fora, talvez ninguém perceba, mas por dentro, pode existir uma batalha silenciosa.
É por isso que falar sobre prevenção do suicídio não deveria significar apenas perguntar se alguém está pensando em morrer. Prevenção também é aprender a perceber quando uma pessoa está sofrendo e criar espaço para que ela não precise carregar essa dor sozinha.
É perguntar de verdade como alguém está e permanecer tempo suficiente para ouvir a resposta. É não minimizar o sofrimento porque, aparentemente, “ela tem tudo para estar bem”.
É não responder à tristeza com frases prontas, como:
“Você precisa ser forte.”
“Isso vai passar.”
“Tem gente passando por coisa pior.”
“Você precisa pensar positivo.”
Talvez essas frases sejam ditas com boa intenção. Mas, para quem está sofrendo, pode produzir ainda mais solidão. Porque, quando a dor não encontra acolhimento, muitas vezes ela aprende a se esconder ainda mais.
Escutar não significa ter a resposta. Significa não deixar a pessoa sozinha diante daquilo que ela está vivendo. E talvez essa seja uma das formas mais simples e, ao mesmo tempo, mais profundas de cuidado.
É por exemplo; Estar presente. Perguntar. Perceber. Ouvir sem imediatamente tentar consertar. Permitir que alguém diga aquilo que talvez nunca tenha conseguido dizer.
No trabalho com mulheres, encontro muitas vezes histórias de pessoas que aprenderam a funcionar apesar de tudo. Elas continuam. Fazem o que precisa ser feito. Cuidam dos outros. Resolvem problemas. Sustentam relações. Trabalham. Produzem. Sorriem. Realizam todas as tarefas da vida enquanto, por dentro, alguma parte delas está pedindo socorro.
Mas, porque? Porque funcionar não é necessariamente estar bem.
E o corpo também pode participar dessa história, como uma respiração que se torna mais curta. Um corpo permanentemente tenso. Um cansaço que não passa. Uma dificuldade de relaxar. Uma sensação constante de alerta. O sono que deixa de restaurar. O peito apertado. A vontade de se recolher de tudo.
Esses sinais não devem ser automaticamente interpretados como sinais de uma única causa, porque o corpo é complexo e sintomas físicos também precisam ser avaliados com o devido cuidado. Mas eles podem nos lembrar de algo essencial: não somos apenas aquilo que conseguimos explicar em palavras.
Há experiências que aparecem primeiro no corpo. E escutá-lo é justamente começar a perceber que alguma coisa dentro de nós precisa de cuidado.
Setembro Amarelo nos convida a falar sobre prevenção do suicídio, mas talvez essa conversa precise ultrapassar o mês de setembro.
Porque a prevenção começa muito antes de uma crise, ela começa:
- Quando construímos relações nas quais podemos ser verdadeiros;
- Quando uma criança aprende que pode falar sobre o que sente sem ser ridicularizada;
- Quando um adolescente percebe que pedir ajuda não o torna fraco;
- Quando uma mulher descobre que não precisa sustentar tudo sozinha;
- Quando uma família aprende a ouvir sem transformar imediatamente a dor em conselho;
- Quando uma sociedade deixa de tratar o sofrimento psíquico como falta de força de vontade;
- E começa também quando cada um de nós aprende a olhar para o outro com um pouco mais de presença.
É importante estar consciente, que talvez aquela pessoa que você considera “forte” esteja cansada; aquela que sempre cuida de todo mundo esteja precisando ser cuidada; aquela que se afastou esteja vivendo algo que ainda não consegue contar. Que aquele sorriso esteja escondendo uma dor que você não conhece.
Isso não significa viver desconfiando de todos ou interpretar qualquer mudança de comportamento como sinal de risco. Significa apenas desenvolver uma qualidade humana que pode fazer diferença: a disposição para perceber o outro para além daquilo que ele mostra.
E, quando alguém nos diz que não está bem, talvez a primeira resposta não precise ser uma solução.
Pode ser simplesmente: “Eu estou aqui.”
“Quer me contar o que está acontecendo?”
“Você não precisa passar por isso sozinha.”
“Vamos procurar ajuda juntos.”
Porque existem momentos em que a pessoa não precisa que alguém resolva sua vida, precisa descobrir que ainda existe alguém disposto a permanecer ao seu lado enquanto ela encontra um caminho.
E procurar ajuda profissional não é sinal de fracasso. Assim como não esperamos que alguém atravesse sozinho uma doença física grave, também não precisamos esperar que o sofrimento emocional se torne insuportável para buscar cuidado.
Pedir ajuda é, muitas vezes, uma forma de escolher continuar.
Talvez seja esse o convite mais importante deste Setembro Amarelo: não apenas falar sobre a morte, mas falar mais profundamente sobre a vida. Sobre aquilo que nos conecta. Sobre vínculos. Sobre presença. Sobre cuidado. Sobre a possibilidade de atravessar momentos difíceis sem precisar atravessá-los em silêncio.
Porque ninguém deveria precisar chegar ao limite para descobrir que merece ser escutado.
E talvez uma das perguntas mais importantes que podemos fazer não seja apenas “você está bem?”. Mas: “Como você realmente está?”. E ter disponibilidade para ouvir a resposta. Sem pressa e sem julgamento. Apenas permanecendo ali.
Às vezes, é nesse espaço de presença que uma pessoa começa, pouco a pouco, a perceber que sua história ainda pode continuar, e que pedir ajuda é possível, e a dor pode ser compartilhada. E que, mesmo quando não conseguimos enxergar uma saída, não precisamos encontrá-la sozinhos.
Se você ou alguém próximo estiver passando por uma situação de sofrimento intenso ou pensando em tirar a própria vida, procure ajuda imediatamente. No Brasil, o CVV atende gratuitamente pelo telefone 188, 24 horas por dia. Em uma situação de emergência ou risco imediato, procure um serviço de emergência ou uma unidade de pronto atendimento.
Obrigada por chegar até aqui!
♡
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Maria Cecília Galvão Brasil
-Psicóloga Clinica | CRP 08/37354
-Psicoterapeuta de Mulheres
-Especialista em Psicoterapia Somática e Saúde Integral
-Especialista em Trauma e Estresse Pós-traumático
-Atendimentos Online | Brasil e Exterior
Para me conhecer melhor acesse: https://www.ceciliabrasil.com/psicologademulheres
“O corpo guarda memórias que só podem ser libertadas quando encontramos um
espaço de confiança e presença."
(David Boadella)




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